15.4.15

ainda

Todo ano imagino voce mais velho..
Hoje completaria vinte e dois e o vejo pela casa.
Um jovem homem, barba por fazer. O pai não veio no final
de semana passada e provavelmente estaria com a barba de duas semanas.
Quem sabe eu o barbearia. Eu saberia barbear um rapaz se você estivesse aqui.
O vejo de jeans claros e camiseta polo de cores sóbrias.
Talvez um pouco acima do peso, sua mãe seria seu exemplo a não seguir neste quesito.
Vez ou outra você estaria de cabelos grandes para me agradar e em outras ocasiões sua avó
o arrastaria para o salão e o deixaria quase careca.
Penso que seria um ótimo irmão e um bom companheiro para mim. Cozinharíamos juntos e voce tentaria apaziguar minhas brigas com a Rafa.
Talvez voce trabalhasse e vez ou outra me trouxesse um vasinho novo de flor. Hoje aquela planta tímida da parede floreceu nos 3 galhos, foi a primeira vez que isto aconteceu, também um dos cactos despontou um botão de flor, não posso deixar de pensar que foi voce como nos aniversários e nas datas difíceis. Voce é lindo e seu cabelo ainda continua claro, eu gosto de ve-lo contra o sol. Temos longas conversas e assistimos filmes bobos juntos, várias vezes nossos preferidos.

15.3.15

o cavalo redomão


- pai pediu pra eu busca a vaca parida e só tinha o cavalo redomão.
- cavalo o que?
- redomão. quando o cavalo não foi domado direito e cê solta antes. cavalo cheio de mania. pula com cê assim de picada. a sela bate de torcida nesse ossim da bunda. cheguei lá e custei fazer a vaca entender para onde ela queria ir. ela viu que o cavalo era trouxa. o bezerro acuado ali nas asas da vaca, não deixava ela andar. chegou na baixada, perto da casa do homem do amendoim, veio a cachorrada dele e cadê da vaca andar mais? ela virou e veio para cima do cavalo, chifrou a anca dele e ele deu de pular. esporei para ele coicear ela. o besta tinha de se defender.
- deu certo?
- nada, o medo dos cachorro era maior. tive de descer e meter pedra na cachorrada. o homem do amendoim não gosta que xinguem os cachorro dele, mas que que eu podia fazer? não gosta que xingue prende os bicho, né? pior que não pude comprar amendoim. o amendoim dele é caprichoso. ele lava as baga quando colhe e põe para secar, olha só como fica limpa? essa aqui foi mãe que me deu, eles passaram lá antes e tinham comprado. não comprei, porque se ele falasse algo eu teria de olhar no olho dele e xingar.
- viche.
- nisso saiu um motoqueiro de lá e ficou com medo. e eu doido pra vaca vê ele e ir atrás, aí ela voltava a caminhar para casa, mas ela só vinha para cima de mim e eu comendo pedra nos cachorro. depois eles cansaram e voltaram pra dentro. voltei pro cavalo e consegui levar as vaca pra manga do Duardo, mas aí já era noite.

8.4.14

El Muerto





 


         Alice correu para a marquise, era noite e chovia. Chegou esbravejando, suas roupas e mochila estavam encharcadas, seu último cigarro pingava em sua boca. Pegou-o nas mãos e verificou que não seria possível secá-lo para depois. Suspirou e jogou-o de lado.

         -Ele me mataria mesmo...

         -Ele não teria tempo.

         -O que você disse? – Olhou espantada para o homem de capa de chuva e chapéu. Era jovem e não trazia nada além de um estojo de couro surrado em forma de violão a seu lado. Quando ela correu para aquela parada de ônibus, no meio da estrada deserta não notou a presença de ninguém. Mesmo naquela tempestade seria impossível não tê-lo visto. A parada era apenas um banco de cimento sem encosto com uma cobertura simples sobre duas pilastras também de cimento finas demais para esconder um homem daquele porte. Ele estava seco, devia estar lá há tempos, caminhou quilômetros até ali e não via uma construção sequer há horas. Continuava a relampear e trovejar muito, apesar disso, sentia-se segura ali, pois atrás deles uma grande montanha atrairia os raios.

         -Disse que o cigarro não teria tempo de lhe matar.

         -Porque? Pretende fazê-lo pessoalmente?

         O estranho gargalhou:

         -Não, mas molhada desse jeito é possível que pegue uma pneumonia. Talvez.

         -É. Talvez. – Disse impaciente. Está aqui há muito tempo?

         -Muito. – Respondeu e sentou-se na beirada do banco, recostou-se, baixou o chapéu sobre o rosto, cruzou as pernas e os braços e calou-se.

         -Certo, amigo, entendi.

         Alice esperou um pouco, abaixou e certificou-se se ele estava realmente dormindo, tirou um saco plástico da mochila com roupas secas e começou a trocar-se ali mesmo. Torcia as peças molhadas que tirava e estirava na trave que unia as duas pilastras da cobertura. Um jeans e uma camiseta era tudo que tinha seco, seu único agasalho escorria junto com as outras roupas. Seu colega de tempestade permanecia imóvel. Ela passou a observá-lo.  Devia ter uns trinta e poucos anos, sob a capa de couro velha que usava e chegava até quase os pés via-se um jeans surrado e uma botina também velha, bem antiga, pareciam feitas à mão. Alice pensou em roubá-las, seus pés estavam congelados. Mas não seria fácil tirá-las daquele grandalhão e se conseguisse teria de correr pela chuva e molhar-se novamente. Ele era negro, tinha os traços fortes, e uma longa cabeleira trançada à moda dos jamaicanos. Mesmo assim apelidou-o mentalmente de Mariachi, por causa do violão. Será que havia algum ali? Parecia que sim, pensou. Sentou-se na outra ponta do banco, tirou uma pequena garrafa de vidro com aguardente da mochila e deu um grande gole, limpou a garganta e disse para si mesma:

         - Arre, daria tudo por um agasalho quentinho...

         - O que está bebendo?

         - Wow, você me assustou, pensei que estava dormindo... Cachaça, porque?

         - Me dá um pouco?

         Alice fez cara de poucos amigos.

         - Se eu lhe der um agasalho...

         -Tudo bem. – Estendeu-lhe a mão e entregou a garrafa. Pensou que tinha se enganado e que ele trazia roupas no estojo, mas o homem se levantou, tirou a capa de chuva e o pulôver que vestia e entregou-o para ela. Ele vestia camiseta e Alice pôde ver em seu ombro uma tatuagem tosca de uma caveira. Embaixo dela estava escrito El Muerto. Lembrou-se de um antigo namorado que tinha uma tatuagem mal feita daquele jeito e pensou que ele devia também ter saído de alguma prisão.

         - Não vai beber?

         Ele não respondeu, guardou a garrafa no bolso. Pensou em xingá-lo, mas a blusa dele a aquecia de forma tão envolvente que desistiu. Começou a esquentar-se imediatamente, de forma que logo seus pés, suas mãos e seu nariz não pareciam mais estarem congelados. Sentia-se como se estivesse nos braços de seu antigo urso de pelúcia, lembrou-se que era assim que se sentia em sua casa na infância, nas noites de tempestade. O cansaço daqueles dias de caminhada pela estrada desabou em seus ombros e mal conseguiu deitar e se ajeitar no banco e dormiu profundamente.

         Mariachi sentou-se novamente na beirada do banco, pegou seu violão e começou a dedilhar uma doce canção, sua voz grave cantarolava baixinho a história de uma pobre moça que sonhava em conhecer um príncipe estrangeiro que a tirasse da vida sofrida que levava.

         Alice acordou pingando suor, o sol batia diretamente em seus olhos e ao levantar custou voltar a enxergar. O chão completamente seco e o sol alto lhe diziam que já devia passar das dez da manhã, suas costas doíam muito e ao passar a mão pelo rosto notou-o bem quente, devia ser o sol. Lembrou-se do Mariachi, olhou a sua volta e não o viu, sua mochila e suas roupas ainda estavam lá e agradeceu-o mentalmente por não tê-la roubado. Nesse momento avistou um ônibus aproximando, deu sinal para ele e acomodou rapidamente as roupas secas novamente dentro da bolsa enquanto ele chegava à parada. Entrou cambaleante, devia ser fome, pensou. Acomodou-se ao lado de uma senhora na única poltrona vazia do veículo. O cobrador veio e ela buscou insegura o dinheiro dentro da mochila, não teve tempo de conferir se estava tudo lá dentro. O dinheiro estava no bolso de fora, intocado, ela pagou a passagem e perguntou ao rapaz quanto tempo até a próxima cidade, ele respondeu: -três horas. Recostou-se e sentiu novamente sua temperatura, devia estar com febre. Cochilou rapidamente. Após algum tempo acordou assustada. A senhora a olhava com olhos sinistros. Alice ardia em febre.

         - O que foi, mulher, porque me olha assim?

         - Você estava delirando... Chamava por El Muerto... – Disse enquanto se benzia.

         - Não se preocupe, é um homem que conheci ontem, ele tinha uma tatuagem no braço escrita El Muerto, devo ter sonhado com ele.

         - Ele te deu algo?

         - Não. Só o vi, estava na parada de ônibus.

         - Como ele era? Tem certeza que ele não lhe deu nada, moça? O que ele disse?

         - Era jovem, bonito, jeito de poucos amigos, tenho certeza que não me deu nada, disse algo sobre meu cigarro, que ele não teria tempo de me matar, o cigarro, sabe? Que talvez eu morresse de pneumonia, por causa da chuva que peguei. – riu – talvez ele tenha acertado, estou com febre.

         - Madre de Diós! – Benzeu-se novamente.

         - O que foi?

         - Falam de um homem que anda por essas bandas e troca bobagens pelas vidas das pessoas, não sabem quem é, só que é jovem, chama-no de El Muerto por causa de uma tatuagem no ombro, dizem que ele encontra suas vítimas, dá um presente a ela em troca de suas vidas e pouco tempo depois elas morrem da forma que ele tinha previsto. Ouço falar desse homem desde que era mocinha, conheço vários casos. Pessoas que o encontram e trocam suas vidas por um copo d’água, um prato de comida, alguma coisa boba assim, depois essas pessoas morrem, doentes, engasgadas, de susto, pouco tempo depois. Um deles presenciei pessoalmente, um compadre de minha mãe chegou todo eufórico na nossa casa, dizendo que finalmente tinha acertado um tiro de espingarda, ele tinha fama de nunca ter conseguido matar um preá que fosse, e vivia teimando que um dia mataria, naquele dia ele tinha tentado por horas pelos matos acertar algum animal, mas os tiros não passavam nem perto. Sua munição tava no fim e ele só tinha mais um tiro. Morrendo de raiva gritou: Ai meu Deus, eu daria tudo para acertar um calanguinho que fosse! Então apareceu esse moço e disse para ele: Ali tem um calango, atire nele, quem sabe você acerta? O compadre respondeu: Moço, eu não consigo acertar um boi a um palmo vou acertar aquele calango lá longe? O fulano insistiu e ele resolveu tentar. Já estava se conformando que nunca mataria nada no tiro mesmo. Mirou assim meio de má vontade e pow! Estourou os miolos do calango. O compadre disse que saiu pulando feito criança e abraçou-se com o moço que tinha o encorajado a atirar, foi quando viu a sua tatuagem. O compadre disse para ele que achava que morreria de tanta felicidade e o sujeito disse para ele que ele podia morrer de susto, mas de felicidade não. O compadre estava distraído contando essa história para minha mãe quando o meu irmão entrou correndo pela cozinha, tropeçou e deixou cair uma gamela bem atrás do homem e foi um barulhão parecido com tiro, ele estatelou os olhos, levou a mão no peito e só deu tempo de soltar o urro mais horrível que eu já ouvi em toda minha vida. Eu que nem estava acreditando na história do compadre porque ele não estava com o calango para provar nada passei a acreditar e também nas outras histórias que já havia tomado conhecimento e as outras que ouvi depois. Tem certeza que ele não lhe deu nada? Você parece doente, vai ver é pneumonia.

         - É, devo ter me resfriado, não precisa ser muito inteligente para desconfiar que eu adoecesse depois de tomar aquela chuva e se o sujeito era jovem na história que a senhora contou não pode ser o mesmo que conheci, certo? Essa blusa que estou usando é dele, mas não foi presente, eu troquei pela cachaça que trazia comigo.

         - Você disse que trocaria sua vida pela blusa?

         - Deus! Claro que não... Quer dizer, quando eu estava me trocando eu devo ter dito algo nesse sentido, mas ele estava dormindo, e como disse, a blusa ele me deu em troca da bebida.

         - Esqueça, filha, não há de ser nada... – benzendo-se novamente.

         - Não deixa de ser uma bela lenda e ele era bem bonito, forte, longas tranças, parecia mesmo um ser lendário... Engraçado, não me lembro de tê-lo visto beber... - disse irônica.

         - Não brinque com essas coisas, minha filha.

         Alice teve uma crise de espirros, enfiou a mão na mochila a procura de um lenço. De repente ela prendeu a respiração e arregalou os olhos para mulher. Eles marejaram, o verde deles ficaram ainda mais translúcidos.  Primeiro uma, depois outra lágrima escorreu em sua face rosada pelo calor.

         - Que foi, filha?

         Ela tirou a mão de dentro da mochila e ao invés do lenço em seus dedos apertava garrafa de aguardente com a mesma quantidade de bebida de antes.

         Alice ficou muda, olhava fixamente pela janela, a senhora a seu lado entristecida fez novamente o sinal da cruz e começou a cantarolar uma canção, como se quisesse esquecer aquela história:



“Dolores vem com su  fuego,

Debajo de su sombrero,

Em la puerta dessa espelunca,

Espera un estrangero...



Dolores nasceu caliente


No chão dessa terra ardente

Su madre ficou demente

Com la febre intermitente

Su padre, acha que era tenente

Não se lembra de su patente

Dolores tinha catorze

E encarava o que quer que fosse

Sonhava com outros mares

Sonhava com um passaporte

Doze anos se passaram

E não mudou a sua sorte

Nem a dela, nem a minha

Resolvi deixar o norte

Tranquei a faculdade

Já arranhava o portunhol

Fui pra terra de Dolores

Muamba, tequila e sol

De dia driblava a alfândega

De noite estragava um rock and róll

Meu inglês aportunholado

Punha fogo em Dolores

E ela com seu rebolado

Matava meus pudores.

  
Dolores, vem com su fuego

Debajo de mi sombrero

Em la puerta dessa espelunca

Io soy su estrangero. ”



         Antes daquela noite Alice não havia ouvido aquela canção, mas ela lhe soara muito familiar. Ouvia em sua memória uma voz grave cantando-a suavemente e um violão bem dedilhado. Adormeceu novamente e acordou somente na hora de descer.  Despediu-se da senhora que disse apenas:

         - Não há de ser nada...

*texto escrito em 2007

28.3.14

Chamaeleonidae


tenho ouvido que pessoas
tem cor na pele
preta, branca, amarela, azul.
procuro e não encontro.
todos à minha volta
tem escamas que mudam de cor
enquanto andam pelas ruas.

deserção

é o silêncio que sai da minha boca.
pensei que ele subiria pela garganta,
mas me entra pelos olhos.
não é a traqueia que aperta,
são os olhos secos.

27.3.14

faúlhas








no cercado dos costelos 
tenho uma pedra preta preta.
vez em quando 
avermelha, solta chispas,
enche de buracos
meu vestido branco branco
da maré de si.

26.3.14

dor

é de uma lonjura que vem esta dor. desceu do ônibus depois de virar a primeira esquina. esperou no primeiro ponto depois da padaria. resolveu ir a pé para pensar na vida. parou no meio do morro para descansar. aceitou ajuda do moço sujo de tinta para carregar as sacolas. encostou no muro para ajeitar o prego na tira da sandália. botou as mãos nas cadeiras antes de seguir. deu uma olhada nas verduras de folha no carrinho da preta verdureira. parou no portão para procurar as chaves. entrou e se aboletou em mim.

25.6.13

Trezena de Nossa Senhora dos Pobres




-Nossa Senhora dos Pobres, que padeceu nos calabouços, lutou pelos injustiçados e agora reina no trono máximo da glória, rogai por nós.
-Mãe dos desempregados, rogai por nós.
(Quer dizer, Mãezinha, não estou desempregada, mas meu salário está defasado, reajustou o salário mínimo e este ano passei a ganhar metade do que eu ganhava.)
-Mãe dos esfomeados, rogai por nós.
(Bem, Senhora, fome, fome não passo, mas mesmo diminuindo a qualidade das compras do mês estou gastando muito mais com comida e minha renda não subiu.)
-Mãe dos ignorantes, rogai por nós.
(Soberana, os meninos estão na escola, mas não consegui pagar este mês. Maria falou para eu colocá-los na escola pública, mas os filhos dela não escrevem e não conseguem somar.)
-Mãe dos desvalidos, rogai por nós.
(É, Protetora, minha filha está na fisioterapia, mas a sessão é muito cara. A clínica da prefeitura só tem estagiários, o plano de saúde come mais que as crianças e não cobre toda a reabilitação).
-Mãe dos descamisados, rogai por nós.
(Altíssima, quanto a isto não se preocupe, conversei com os meninos e estamos nos virando com as roupas dos verões passados.)
Senhora, preciso confessar, peguei esta trezena com a Maria, a moça que fica com meus filhos para eu ir trabalhar. Ela me contou que tem alcançado muita graça e que a vida dela melhorou. Porém, estou pensando aqui, acho que a Senhora não é minha padroeira. Ando tão desesperada não tenho com quem reclamar. Meu patrão disse que faz uns sacrifícios, umas oferendas, vendeu a alma e vive só a prosperar. Não achei correto. Está certo, Santíssima, mãe dos pequeninos, desculpe o incômodo, não quero mais atrapalhar. Se reclamo é que esqueci que eu podia estar pior. Não vou mais tomar seu tempo, está na hora e preciso ir trabalhar.


Roberta Silva

9.2.13

lasso



presa pela cintura fui arrastada.
a cicatriz virou cidade de uma rua só.
lá se anda em círculos, ora por casinhas pequenas
com garotos soltando pipas, ora por esgotos a céu aberto.
à medida que engordava ou emagrecia, nós nos apertávamos
ou quase nos perdíamos.

a cidade é um poema do Neruda.
só se chega lá de caminhão, todo sujo e enrugado.
não existe mapa, o caminho fora aberto na marra.

roberta silva

2.1.13

lâmina

não me interessa ferir pessoas.
o que as agrada me fere.
querem que eu resolva os problemas financeiros,
emocionais, físicos, espirituais.
cobram-me com olhares de como se existissem soluções óbvias.

estar viva é maior presente que posso lhes dar.
é muito mais do que posso suportar.
doem-me os pés toda vez que toco o chão.
as costas quando tento voar.

penso na dor fingida em me perder.
nos que dependem de mim para ser.
penso no que escrevo e em sua baixa qualidade literária.
assusta-me não ter algo para deixar.
ser esquecida no abaixar da poeira.

será que todos sentem o mesmo peso/?
sobre todas as cabeças balança a mesma guilhotina?
começa um novo ano e eu deveria me alegrar.
renovar minhas esperanças e seguir.

2013 é tão parecido com 1971.
a única coisa que sei
e não é meu mérito
é respirar.

21.4.12

leito 66-6

Roberta Silva


Senhorinha do leito 66-6. Batizada nas águas bentas da paróquia de Nossa Senhora da Consolação, nos idos dos mil novecentos e pouco. Aprendeu desde cedo a rezar o terço. Cuidou da horta da sacristia enquanto sua mãe polia o santíssimo. Miúda, sobreviveu de migalhas e hóstias.

Deu entrada no Hospital de Misericórdia Martin Lutero após síncope sofrida na rua, encontrada inconsciente à chegada do SAMU. Na ambulância só resmungou alguma coisa quanto lhe torceram o mamilo. – Demônio, Satanás! – Foi avaliada por um médico apressado, por um enfermeiro estressado, uma fisioterapeuta equivocada e está sob cuidados de duas técnicas bem intencionadas. 

À acadêmica foi delegada a coleta de urina para a urocultura: 01 frasco de coleta estéril, 02 luvas de toque estéreis, 04 pacotes de gazes bem intencionadas.

Professor: - Leito 66-6 é de quem?
Acadêmica: - Meu.
Professor: - Sondagem vesical de alívio para coleta de urina para exame. Não tem campo estéril, se quiser pegue um kit para curativo.
Acadêmica: - Não. Sem kit.

- Senhora, acorde, vamos colher a urina para o exame.
- Volta para o inferno, Satanás!

O terço, não viram, misturava-se aos santinhos no fundo da bolsa esquecida no escaninho ao lado do leito entre fraldas e restos de biscoitos. Calçaram-lhe luvas, ataduras envolvidas nas mãos em forma de luva de boxe, para que não removesse o tubo de látex que ia de seu nariz até o intestino. Nelas a fita crepe tinha a data de dez dias atrás. Talvez não volte a rezar o terço.

- Volta para o inferno, Demônio!

Abriu-lhe a fralda, posicionou a comadre embaixo do curativo úmido de seu sacro.

- Demônio, Excomungada, volta para o inferno!

A acadêmica não levou em conta os xingamentos. Anatomia: uretra feminina 05 a 07 cm, Sonda Vesical de Alívio: procedimento estéril, Antissepsia: degermante tópico, p.v.p.i. tópico, soro fisiológico, Campo Estéril: gases bem intencionadas jogadas ao redor dos grandes lábios, Catéter: enrolado e seguro com a mão dominante calçada em luva de toque estéril. - Demônio, volta para o inferno! – Anatomia: grandes lábios, pequenos lábios, de fora para dentro, clitóris, uretra, canal vaginal, períneo, ânus, de cima para baixo. Fralda seca, balanço hídrico: última mensuração há mais de 24 horas, 720ml. 

Retirou excesso de p.v.p.i., produto químico para antissepsia local que causa prurido e ardor em mucosas.

- Já terminei, meu anjo, já estou voltando para o inferno.

12.3.12

mrs. clooney


Roberta Silva

Ficava incomodada ao entrar em uma livraria e dar com as capas dos lançamentos estampando fotos dos atores que o viveram no cinema. Era como se a editora roubasse de mim o direito de criar meu personagem, de interpretar a minha maneira os detalhes descritos no livro.

Foi por acaso que adquiri este com a foto de George Clooney. Havia comprado os livros didáticos da minha filha e alguns da lista eram os mesmos do ano passado. Fiquei com um crédito na loja quando fui devolvê-los. Achei que o vendedor me reprenderia com o olhar por eu não ter conferido a lista antes, mas ele não fez, se me julgou uma péssima mãe disfarçou bem. 

Passei por este livro quando entrei na loja e lamentei não ter assistido no cinema ao filme indicado ao Oscar deste ano. Geralmente prefiro os livros, mas ter de comprá-los por não ter o direito de ir ao cinema é, para mim, como aceitar uma sentença injusta e não lutar.

O crédito na livraria isentou minha autoestima do vexame e não hesitei em escolher “Os Descendentes” de Kaui Hart Hemmings.

Atualmente ler ficção é também um luxo que não posso me permitir. E, tendo me obrigado a este, para não atrapalhar o estudo, leio-o dentro do ônibus, na ida para o estágio, único trajeto que consigo assento livre. Quando muito, 10 páginas por dia.

Na capa, George aparece cansado e perdido. Seu penteado não é o da moda, sua camisa é cafona e a aliança grossa na mão esquerda me dá a impressão de ser ele mesmo o marido que narra esta história tão simples e comovente.

A última vez que isto aconteceu foi quando li 100 Anos de Solidão. Na época foi também uma leitura longa. A foto do Gabriel Garcia Márquez, na contracapa, a princípio me lembrou meu avô. No entanto, ao longo da leitura ele deixou de sê-lo e eu sentia como se estivesse sentada em uma espreguiçadeira da varanda, a seu lado, enquanto ouvia-o contando a saga dos Buendías. À nossa frente uma bela paisagem e pôr de sol. 

Naquela época meu refresco preferido era chá mate gelado com canela e limão e quando pausava a leitura era ele quem ia à cozinha e trazia um copo grande para mim.

Outro dia vi uma foto recente dele aos 85 anos. Vejo aquele olhar e não aceito que ele não saiba nada de mim, que não possa escrever minha história se quiser.

Para o Clooney é diferente, não compartilhamos nossas vidas. Vejo-o tendo de se adequar à condição de pai de minhas filhas problemáticas enquanto aparelhos sustentam minha vida no hospital. Estou em coma. Irreversível.

Sua história encaixa-se perfeitamente na minha. Crio minhas filhas enquanto trabalho, gerencio a casa, faço faculdade e estou extremamente cansada. De certa forma sou eu quem assinou um living will . Sobrevivo artificialmente agindo contra minha natureza. Trabalho em algo que não me satisfaz, mantenho uma casa que não tem minha cara, me irrito com a presença das minhas filhas, não tenho vocação para a enfermagem.

Sinto falta de Gabo e dos meus cem anos de solidão.