26.3.11

paciente x - admissão (parte II)


Disse que estavam surgindo asas de suas escápulas tão naturalmente que não percebemos de pronto. Ela teve uma melhora repentina quando a pústula se abriu e saiu de lá uma espécie de ponta óssea que cresceu rapidamente por alguns segundos até quinze centímetros.

Peguei uma cuba com água quente e gazes e fiz assepsia retirando a secreção. Não sei o que está acontecendo e sei que devia ter chamado alguém, mas não senti a menor vontade de fazê-lo. Posso ser punida por isto caso aconteça algo. Ela estava muito cansada e assim que sequei seu suor e troquei seus lençóis enxarcados ela adormeceu. Pulso e respiração estáveis. Temperatura axilar 36,5ºC. Nenhum sinal de dor. Virou-se em decúbito lateral esquerdo e pude notar que a protuberância óssea que tinha surgido esbraquiçada e úmida está seca e levemente escurecida. O tecido no entorno não apresenta sinais flogísticos.

Faço estas anotações em um caderno que comprei na loja de conveniência do lado da clínica. Não evolui o prontuário da paciente ainda. Não sei como fazê-lo. Daqui quatro horas termina o plantão e estou com receio de voltar e ver que tudo não aconteceu de verdade. Se tiver ou não, nada será como antes depois de hoje.

Ninguém além de mim presenciou nada do que anotei aqui. Sei que será fácil convencê-los dos fatos assim que notarem as asas, digo, os ossos que surgiram na paciente. Vão querer estudar o caso, eu também quero, mas temo por ela. Está emocionalmente alterada. Talvez esteja mais lúcida agora que a hipertermia cedeu. Alguém se aproxima. Deve ser o médico do plantão.

Nenhum comentário: