8.4.14

El Muerto





 


         Alice correu para a marquise, era noite e chovia. Chegou esbravejando, suas roupas e mochila estavam encharcadas, seu último cigarro pingava em sua boca. Pegou-o nas mãos e verificou que não seria possível secá-lo para depois. Suspirou e jogou-o de lado.

         -Ele me mataria mesmo...

         -Ele não teria tempo.

         -O que você disse? – Olhou espantada para o homem de capa de chuva e chapéu. Era jovem e não trazia nada além de um estojo de couro surrado em forma de violão a seu lado. Quando ela correu para aquela parada de ônibus, no meio da estrada deserta não notou a presença de ninguém. Mesmo naquela tempestade seria impossível não tê-lo visto. A parada era apenas um banco de cimento sem encosto com uma cobertura simples sobre duas pilastras também de cimento finas demais para esconder um homem daquele porte. Ele estava seco, devia estar lá há tempos, caminhou quilômetros até ali e não via uma construção sequer há horas. Continuava a relampear e trovejar muito, apesar disso, sentia-se segura ali, pois atrás deles uma grande montanha atrairia os raios.

         -Disse que o cigarro não teria tempo de lhe matar.

         -Porque? Pretende fazê-lo pessoalmente?

         O estranho gargalhou:

         -Não, mas molhada desse jeito é possível que pegue uma pneumonia. Talvez.

         -É. Talvez. – Disse impaciente. Está aqui há muito tempo?

         -Muito. – Respondeu e sentou-se na beirada do banco, recostou-se, baixou o chapéu sobre o rosto, cruzou as pernas e os braços e calou-se.

         -Certo, amigo, entendi.

         Alice esperou um pouco, abaixou e certificou-se se ele estava realmente dormindo, tirou um saco plástico da mochila com roupas secas e começou a trocar-se ali mesmo. Torcia as peças molhadas que tirava e estirava na trave que unia as duas pilastras da cobertura. Um jeans e uma camiseta era tudo que tinha seco, seu único agasalho escorria junto com as outras roupas. Seu colega de tempestade permanecia imóvel. Ela passou a observá-lo.  Devia ter uns trinta e poucos anos, sob a capa de couro velha que usava e chegava até quase os pés via-se um jeans surrado e uma botina também velha, bem antiga, pareciam feitas à mão. Alice pensou em roubá-las, seus pés estavam congelados. Mas não seria fácil tirá-las daquele grandalhão e se conseguisse teria de correr pela chuva e molhar-se novamente. Ele era negro, tinha os traços fortes, e uma longa cabeleira trançada à moda dos jamaicanos. Mesmo assim apelidou-o mentalmente de Mariachi, por causa do violão. Será que havia algum ali? Parecia que sim, pensou. Sentou-se na outra ponta do banco, tirou uma pequena garrafa de vidro com aguardente da mochila e deu um grande gole, limpou a garganta e disse para si mesma:

         - Arre, daria tudo por um agasalho quentinho...

         - O que está bebendo?

         - Wow, você me assustou, pensei que estava dormindo... Cachaça, porque?

         - Me dá um pouco?

         Alice fez cara de poucos amigos.

         - Se eu lhe der um agasalho...

         -Tudo bem. – Estendeu-lhe a mão e entregou a garrafa. Pensou que tinha se enganado e que ele trazia roupas no estojo, mas o homem se levantou, tirou a capa de chuva e o pulôver que vestia e entregou-o para ela. Ele vestia camiseta e Alice pôde ver em seu ombro uma tatuagem tosca de uma caveira. Embaixo dela estava escrito El Muerto. Lembrou-se de um antigo namorado que tinha uma tatuagem mal feita daquele jeito e pensou que ele devia também ter saído de alguma prisão.

         - Não vai beber?

         Ele não respondeu, guardou a garrafa no bolso. Pensou em xingá-lo, mas a blusa dele a aquecia de forma tão envolvente que desistiu. Começou a esquentar-se imediatamente, de forma que logo seus pés, suas mãos e seu nariz não pareciam mais estarem congelados. Sentia-se como se estivesse nos braços de seu antigo urso de pelúcia, lembrou-se que era assim que se sentia em sua casa na infância, nas noites de tempestade. O cansaço daqueles dias de caminhada pela estrada desabou em seus ombros e mal conseguiu deitar e se ajeitar no banco e dormiu profundamente.

         Mariachi sentou-se novamente na beirada do banco, pegou seu violão e começou a dedilhar uma doce canção, sua voz grave cantarolava baixinho a história de uma pobre moça que sonhava em conhecer um príncipe estrangeiro que a tirasse da vida sofrida que levava.

         Alice acordou pingando suor, o sol batia diretamente em seus olhos e ao levantar custou voltar a enxergar. O chão completamente seco e o sol alto lhe diziam que já devia passar das dez da manhã, suas costas doíam muito e ao passar a mão pelo rosto notou-o bem quente, devia ser o sol. Lembrou-se do Mariachi, olhou a sua volta e não o viu, sua mochila e suas roupas ainda estavam lá e agradeceu-o mentalmente por não tê-la roubado. Nesse momento avistou um ônibus aproximando, deu sinal para ele e acomodou rapidamente as roupas secas novamente dentro da bolsa enquanto ele chegava à parada. Entrou cambaleante, devia ser fome, pensou. Acomodou-se ao lado de uma senhora na única poltrona vazia do veículo. O cobrador veio e ela buscou insegura o dinheiro dentro da mochila, não teve tempo de conferir se estava tudo lá dentro. O dinheiro estava no bolso de fora, intocado, ela pagou a passagem e perguntou ao rapaz quanto tempo até a próxima cidade, ele respondeu: -três horas. Recostou-se e sentiu novamente sua temperatura, devia estar com febre. Cochilou rapidamente. Após algum tempo acordou assustada. A senhora a olhava com olhos sinistros. Alice ardia em febre.

         - O que foi, mulher, porque me olha assim?

         - Você estava delirando... Chamava por El Muerto... – Disse enquanto se benzia.

         - Não se preocupe, é um homem que conheci ontem, ele tinha uma tatuagem no braço escrita El Muerto, devo ter sonhado com ele.

         - Ele te deu algo?

         - Não. Só o vi, estava na parada de ônibus.

         - Como ele era? Tem certeza que ele não lhe deu nada, moça? O que ele disse?

         - Era jovem, bonito, jeito de poucos amigos, tenho certeza que não me deu nada, disse algo sobre meu cigarro, que ele não teria tempo de me matar, o cigarro, sabe? Que talvez eu morresse de pneumonia, por causa da chuva que peguei. – riu – talvez ele tenha acertado, estou com febre.

         - Madre de Diós! – Benzeu-se novamente.

         - O que foi?

         - Falam de um homem que anda por essas bandas e troca bobagens pelas vidas das pessoas, não sabem quem é, só que é jovem, chama-no de El Muerto por causa de uma tatuagem no ombro, dizem que ele encontra suas vítimas, dá um presente a ela em troca de suas vidas e pouco tempo depois elas morrem da forma que ele tinha previsto. Ouço falar desse homem desde que era mocinha, conheço vários casos. Pessoas que o encontram e trocam suas vidas por um copo d’água, um prato de comida, alguma coisa boba assim, depois essas pessoas morrem, doentes, engasgadas, de susto, pouco tempo depois. Um deles presenciei pessoalmente, um compadre de minha mãe chegou todo eufórico na nossa casa, dizendo que finalmente tinha acertado um tiro de espingarda, ele tinha fama de nunca ter conseguido matar um preá que fosse, e vivia teimando que um dia mataria, naquele dia ele tinha tentado por horas pelos matos acertar algum animal, mas os tiros não passavam nem perto. Sua munição tava no fim e ele só tinha mais um tiro. Morrendo de raiva gritou: Ai meu Deus, eu daria tudo para acertar um calanguinho que fosse! Então apareceu esse moço e disse para ele: Ali tem um calango, atire nele, quem sabe você acerta? O compadre respondeu: Moço, eu não consigo acertar um boi a um palmo vou acertar aquele calango lá longe? O fulano insistiu e ele resolveu tentar. Já estava se conformando que nunca mataria nada no tiro mesmo. Mirou assim meio de má vontade e pow! Estourou os miolos do calango. O compadre disse que saiu pulando feito criança e abraçou-se com o moço que tinha o encorajado a atirar, foi quando viu a sua tatuagem. O compadre disse para ele que achava que morreria de tanta felicidade e o sujeito disse para ele que ele podia morrer de susto, mas de felicidade não. O compadre estava distraído contando essa história para minha mãe quando o meu irmão entrou correndo pela cozinha, tropeçou e deixou cair uma gamela bem atrás do homem e foi um barulhão parecido com tiro, ele estatelou os olhos, levou a mão no peito e só deu tempo de soltar o urro mais horrível que eu já ouvi em toda minha vida. Eu que nem estava acreditando na história do compadre porque ele não estava com o calango para provar nada passei a acreditar e também nas outras histórias que já havia tomado conhecimento e as outras que ouvi depois. Tem certeza que ele não lhe deu nada? Você parece doente, vai ver é pneumonia.

         - É, devo ter me resfriado, não precisa ser muito inteligente para desconfiar que eu adoecesse depois de tomar aquela chuva e se o sujeito era jovem na história que a senhora contou não pode ser o mesmo que conheci, certo? Essa blusa que estou usando é dele, mas não foi presente, eu troquei pela cachaça que trazia comigo.

         - Você disse que trocaria sua vida pela blusa?

         - Deus! Claro que não... Quer dizer, quando eu estava me trocando eu devo ter dito algo nesse sentido, mas ele estava dormindo, e como disse, a blusa ele me deu em troca da bebida.

         - Esqueça, filha, não há de ser nada... – benzendo-se novamente.

         - Não deixa de ser uma bela lenda e ele era bem bonito, forte, longas tranças, parecia mesmo um ser lendário... Engraçado, não me lembro de tê-lo visto beber... - disse irônica.

         - Não brinque com essas coisas, minha filha.

         Alice teve uma crise de espirros, enfiou a mão na mochila a procura de um lenço. De repente ela prendeu a respiração e arregalou os olhos para mulher. Eles marejaram, o verde deles ficaram ainda mais translúcidos.  Primeiro uma, depois outra lágrima escorreu em sua face rosada pelo calor.

         - Que foi, filha?

         Ela tirou a mão de dentro da mochila e ao invés do lenço em seus dedos apertava garrafa de aguardente com a mesma quantidade de bebida de antes.

         Alice ficou muda, olhava fixamente pela janela, a senhora a seu lado entristecida fez novamente o sinal da cruz e começou a cantarolar uma canção, como se quisesse esquecer aquela história:



“Dolores vem com su  fuego,

Debajo de su sombrero,

Em la puerta dessa espelunca,

Espera un estrangero...



Dolores nasceu caliente


No chão dessa terra ardente

Su madre ficou demente

Com la febre intermitente

Su padre, acha que era tenente

Não se lembra de su patente

Dolores tinha catorze

E encarava o que quer que fosse

Sonhava com outros mares

Sonhava com um passaporte

Doze anos se passaram

E não mudou a sua sorte

Nem a dela, nem a minha

Resolvi deixar o norte

Tranquei a faculdade

Já arranhava o portunhol

Fui pra terra de Dolores

Muamba, tequila e sol

De dia driblava a alfândega

De noite estragava um rock and róll

Meu inglês aportunholado

Punha fogo em Dolores

E ela com seu rebolado

Matava meus pudores.

  
Dolores, vem com su fuego

Debajo de mi sombrero

Em la puerta dessa espelunca

Io soy su estrangero. ”



         Antes daquela noite Alice não havia ouvido aquela canção, mas ela lhe soara muito familiar. Ouvia em sua memória uma voz grave cantando-a suavemente e um violão bem dedilhado. Adormeceu novamente e acordou somente na hora de descer.  Despediu-se da senhora que disse apenas:

         - Não há de ser nada...

*texto escrito em 2007

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