22.4.11

paciente x - confusa


... 
Há dois dias ele voltou. Chegou a tempo de impedir que eu saísse sozinha. Havia resolvido que enfrentaria o mundo, foi nesta hora que percebi que estava trancada por fora. As chaves não estavam na porta e não as encontrei em parte alguma. Como pude não perceber isto antes? Por dias não cogitei a possibilidade de sair. Estive numa espécie de torpor, a apatia me prendeu mais que a falta de chaves. Procurei no lixo os restos de comida e garrafas d'água que havia utilizado. Lixeiras vazias. Como? Fora a cama, que permanecera desarrumada por todos estes dias, o resto estava em perfeita ordem. Toalhas dobradas e secas todas as vezes que eu decidi tomar banho, sem poeira nos móveis, roupas limpas. 

Forcei a memória e não encontrei nenhuma lembrança do serviço de quarto nestes últimos dias. Deve ter sido feito durante meu sono. Tenho o sono tão leve. Um estranho entrou em meu quarto, mexeu nas coisas e eu não acordei. Será que estava dopada? Muitas perguntas e pouco tempo prático para minhas anotações e deduções. 

Quando ele chegou me encontrou assustada. A claridade vinda da porta feriu meus olhos e demorei alguns segundos antes de reconhecer seu vulto. Antes que eu abrisse a boca ele desculpou-se dizendo que demorara mais do que previra e que lamentava ter me prendido, mas tinha apenas uma chave. Ficou aliviado ao remexer as sacolas e ver que ainda restavam suprimentos. Antes de abrir a boca para interrogá-lo avaliei se seria capaz de fugir caso as coisas saíssem do controle. Estava cansada apesar de não ter feito nada além de dormir nos últimos dias, estava confusa e ele bloqueava a única saída possível. Avançaria devagar:

- Quem é você?

Mais uma vez aquele olhar. Pareceu impaciente e pouco disposto a maiores explicações. Como eu imaginei suas respostas eram curtas e pouco esclarecedoras.

- Meu nome é Agostin.

Esperei por alguns segundos por informações espontâneas, ele disfarçou o silêncio movimentando pelo quarto. Recolhia minhas roupas e as colocava numa bolsa. Retirou a roupa de cama e toalhas usadas e colocou-os em um saco preto de lixo. No banheiro recolheu escovas, pente, limpou a pia e recolheu o lixo. Pegou o sabonete, o shampoo e a pasta de dente, limpou os ralos da pia e do box. 

A porta estava aberta, devia ser umas seis horas da tarde, ninguém no pátio. Uns trinta metros até o portão principal, devia ter alguma guarita, não sei porque olhei isto, nunca teria coragem de correr e pedir ajuda. Seguimos até seu carro que estava estacionado na rua de trás sem sermos vistos e seguimos para auto-estrada. Estava com sede e fome, mas decidi não comer ou beber nada até me sentir mais lúcida, lembro-me das placas fluorescentes na estrada antes de dormir novamente.

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