Alice
correu para a marquise, era noite e chovia. Chegou esbravejando, suas roupas e
mochila estavam encharcadas, seu último cigarro pingava em sua boca. Pegou-o
nas mãos e verificou que não seria possível secá-lo para depois. Suspirou e
jogou-o de lado.
-Ele me mataria mesmo...
-Ele não teria tempo.
-O que você disse? – Olhou espantada
para o homem de capa de chuva e chapéu. Era jovem e não trazia nada além de um
estojo de couro surrado em forma de violão a seu lado. Quando ela correu para
aquela parada de ônibus, no meio da estrada deserta não notou a presença de
ninguém. Mesmo naquela tempestade seria impossível não tê-lo visto. A parada
era apenas um banco de cimento sem encosto com uma cobertura simples sobre duas
pilastras também de cimento finas demais para esconder um homem daquele porte.
Ele estava seco, devia estar lá há tempos, caminhou quilômetros até ali e não
via uma construção sequer há horas. Continuava a relampear e trovejar muito,
apesar disso, sentia-se segura ali, pois atrás deles uma grande montanha
atrairia os raios.
-Disse que o cigarro não teria tempo de
lhe matar.
-Porque? Pretende fazê-lo pessoalmente?
O estranho gargalhou:
-Não, mas molhada desse jeito é
possível que pegue uma pneumonia. Talvez.
-É. Talvez. – Disse impaciente. Está
aqui há muito tempo?
-Muito. – Respondeu e sentou-se na
beirada do banco, recostou-se, baixou o chapéu sobre o rosto, cruzou as pernas
e os braços e calou-se.
-Certo, amigo, entendi.
Alice esperou um pouco, abaixou e certificou-se
se ele estava realmente dormindo, tirou um saco plástico da mochila com roupas
secas e começou a trocar-se ali mesmo. Torcia as peças molhadas que tirava e
estirava na trave que unia as duas pilastras da cobertura. Um jeans e uma
camiseta era tudo que tinha seco, seu único agasalho escorria junto com as
outras roupas. Seu colega de tempestade permanecia imóvel. Ela passou a observá-lo. Devia ter uns trinta e poucos anos, sob a
capa de couro velha que usava e chegava até quase os pés via-se um jeans
surrado e uma botina também velha, bem antiga, pareciam feitas à mão. Alice
pensou em roubá-las, seus pés estavam congelados. Mas não seria fácil tirá-las
daquele grandalhão e se conseguisse teria de correr pela chuva e molhar-se
novamente. Ele era negro, tinha os traços fortes, e uma longa cabeleira
trançada à moda dos jamaicanos. Mesmo assim apelidou-o mentalmente de Mariachi,
por causa do violão. Será que havia algum ali? Parecia que sim, pensou.
Sentou-se na outra ponta do banco, tirou uma pequena garrafa de vidro com
aguardente da mochila e deu um grande gole, limpou a garganta e disse para si
mesma:
- Arre, daria tudo por um agasalho
quentinho...
- O que está bebendo?
- Wow, você me assustou, pensei que
estava dormindo... Cachaça, porque?
- Me dá um pouco?
Alice fez cara de poucos amigos.
- Se eu lhe der um agasalho...
-Tudo bem. – Estendeu-lhe a mão e
entregou a garrafa. Pensou que tinha se enganado e que ele trazia roupas no
estojo, mas o homem se levantou, tirou a capa de chuva e o pulôver que vestia e
entregou-o para ela. Ele vestia camiseta e Alice pôde ver em seu ombro uma
tatuagem tosca de uma caveira. Embaixo dela estava escrito El Muerto.
Lembrou-se de um antigo namorado que tinha uma tatuagem mal feita daquele jeito
e pensou que ele devia também ter saído de alguma prisão.
- Não vai beber?
Ele não respondeu, guardou a garrafa no
bolso. Pensou em xingá-lo, mas a blusa dele a aquecia de forma tão envolvente
que desistiu. Começou a esquentar-se imediatamente, de forma que logo seus pés,
suas mãos e seu nariz não pareciam mais estarem congelados. Sentia-se como se
estivesse nos braços de seu antigo urso de pelúcia, lembrou-se que era assim
que se sentia em sua casa na infância, nas noites de tempestade. O cansaço
daqueles dias de caminhada pela estrada desabou em seus ombros e mal conseguiu
deitar e se ajeitar no banco e dormiu profundamente.
Mariachi sentou-se novamente na beirada
do banco, pegou seu violão e começou a dedilhar uma doce canção, sua voz grave cantarolava
baixinho a história de uma pobre moça que sonhava em conhecer um príncipe
estrangeiro que a tirasse da vida sofrida que levava.
Alice acordou pingando suor, o sol
batia diretamente em seus olhos e ao levantar custou voltar a enxergar. O chão
completamente seco e o sol alto lhe diziam que já devia passar das dez da
manhã, suas costas doíam muito e ao passar a mão pelo rosto notou-o bem quente,
devia ser o sol. Lembrou-se do Mariachi, olhou a sua volta e não o viu, sua
mochila e suas roupas ainda estavam lá e agradeceu-o mentalmente por não tê-la
roubado. Nesse momento avistou um ônibus aproximando, deu sinal para ele e
acomodou rapidamente as roupas secas novamente dentro da bolsa enquanto ele
chegava à parada. Entrou cambaleante, devia ser fome, pensou. Acomodou-se ao lado
de uma senhora na única poltrona vazia do veículo. O cobrador veio e ela buscou
insegura o dinheiro dentro da mochila, não teve tempo de conferir se estava
tudo lá dentro. O dinheiro estava no bolso de fora, intocado, ela pagou a
passagem e perguntou ao rapaz quanto tempo até a próxima cidade, ele respondeu:
-três horas. Recostou-se e sentiu novamente sua temperatura, devia estar com
febre. Cochilou rapidamente. Após algum tempo acordou assustada. A senhora a
olhava com olhos sinistros. Alice ardia em febre.
- O que foi, mulher, porque me olha
assim?
- Você estava delirando... Chamava por El Muerto... – Disse enquanto se benzia.
- Não se preocupe, é um homem que
conheci ontem, ele tinha uma tatuagem no braço escrita El Muerto, devo ter sonhado com ele.
- Ele te deu algo?
- Não. Só o vi, estava na parada de
ônibus.
- Como ele era? Tem certeza que ele não
lhe deu nada, moça? O que ele disse?
- Era jovem, bonito, jeito de poucos
amigos, tenho certeza que não me deu nada, disse algo sobre meu cigarro, que
ele não teria tempo de me matar, o cigarro, sabe? Que talvez eu morresse de
pneumonia, por causa da chuva que peguei. – riu – talvez ele tenha acertado,
estou com febre.
- Madre de Diós! – Benzeu-se novamente.
- O que foi?
- Falam de um homem que anda por essas
bandas e troca bobagens pelas vidas das pessoas, não sabem quem é, só que é
jovem, chama-no de El Muerto por
causa de uma tatuagem no ombro, dizem que ele encontra suas vítimas, dá um
presente a ela em troca de suas vidas e pouco tempo depois elas morrem da forma
que ele tinha previsto. Ouço falar desse homem desde que era mocinha, conheço
vários casos. Pessoas que o encontram e trocam suas vidas por um copo d’água,
um prato de comida, alguma coisa boba assim, depois essas pessoas morrem, doentes,
engasgadas, de susto, pouco tempo depois. Um deles presenciei pessoalmente, um
compadre de minha mãe chegou todo eufórico na nossa casa, dizendo que
finalmente tinha acertado um tiro de espingarda, ele tinha fama de nunca ter
conseguido matar um preá que fosse, e vivia teimando que um dia mataria,
naquele dia ele tinha tentado por horas pelos matos acertar algum animal, mas
os tiros não passavam nem perto. Sua munição tava no fim e ele só tinha mais um
tiro. Morrendo de raiva gritou: Ai meu Deus, eu daria tudo para acertar um
calanguinho que fosse! Então apareceu esse moço e disse para ele: Ali tem um
calango, atire nele, quem sabe você acerta? O compadre respondeu: Moço, eu não
consigo acertar um boi a um palmo vou acertar aquele calango lá longe? O fulano
insistiu e ele resolveu tentar. Já estava se conformando que nunca mataria nada
no tiro mesmo. Mirou assim meio de má vontade e pow! Estourou os miolos do
calango. O compadre disse que saiu pulando feito criança e abraçou-se com o
moço que tinha o encorajado a atirar, foi quando viu a sua tatuagem. O compadre
disse para ele que achava que morreria de tanta felicidade e o sujeito disse
para ele que ele podia morrer de susto, mas de felicidade não. O compadre
estava distraído contando essa história para minha mãe quando o meu irmão
entrou correndo pela cozinha, tropeçou e deixou cair uma gamela bem atrás do
homem e foi um barulhão parecido com tiro, ele estatelou os olhos, levou a mão
no peito e só deu tempo de soltar o urro mais horrível que eu já ouvi em toda
minha vida. Eu que nem estava acreditando na história do compadre porque ele
não estava com o calango para provar nada passei a acreditar e também nas
outras histórias que já havia tomado conhecimento e as outras que ouvi depois.
Tem certeza que ele não lhe deu nada? Você parece doente, vai ver é pneumonia.
- É, devo ter me resfriado, não precisa
ser muito inteligente para desconfiar que eu adoecesse depois de tomar aquela
chuva e se o sujeito era jovem na história que a senhora contou não pode ser o
mesmo que conheci, certo? Essa blusa que estou usando é dele, mas não foi
presente, eu troquei pela cachaça que trazia comigo.
- Você disse que trocaria sua vida pela
blusa?
- Deus! Claro que não... Quer dizer,
quando eu estava me trocando eu devo ter dito algo nesse sentido, mas ele
estava dormindo, e como disse, a blusa ele me deu em troca da bebida.
- Esqueça, filha, não há de ser nada...
– benzendo-se novamente.
- Não deixa de ser uma bela lenda e ele
era bem bonito, forte, longas tranças, parecia mesmo um ser lendário...
Engraçado, não me lembro de tê-lo visto beber... - disse irônica.
- Não brinque com essas coisas, minha
filha.
Alice teve uma crise de espirros,
enfiou a mão na mochila a procura de um lenço. De repente ela prendeu a
respiração e arregalou os olhos para mulher. Eles marejaram, o verde deles
ficaram ainda mais translúcidos.
Primeiro uma, depois outra lágrima escorreu em sua face rosada pelo
calor.
- Que foi, filha?
Ela tirou a mão de dentro da mochila e
ao invés do lenço em seus dedos apertava garrafa de aguardente com a mesma
quantidade de bebida de antes.
Alice ficou muda, olhava fixamente pela
janela, a senhora a seu lado entristecida fez novamente o sinal da cruz e
começou a cantarolar uma canção, como se quisesse esquecer aquela história:
“Dolores
vem com su fuego,
Debajo de su sombrero,
Em la
puerta dessa espelunca,
Espera un
estrangero...
Dolores nasceu caliente
No
chão dessa terra ardente
Su
madre ficou demente
Com
la febre intermitente
Su
padre, acha que era tenente
Não
se lembra de su patente
Dolores
tinha catorze
E
encarava o que quer que fosse
Sonhava
com outros mares
Sonhava
com um passaporte
Doze
anos se passaram
E
não mudou a sua sorte
Nem
a dela, nem a minha
Resolvi
deixar o norte
Tranquei
a faculdade
Já
arranhava o portunhol
Fui
pra terra de Dolores
Muamba,
tequila e sol
De
dia driblava a alfândega
De
noite estragava um rock and róll
Meu
inglês aportunholado
Punha
fogo em Dolores
E
ela com seu rebolado
Matava
meus pudores.
Dolores, vem com su fuego
Debajo de mi sombrero
Em la puerta dessa espelunca
Io soy su estrangero. ”
Antes
daquela noite Alice não havia ouvido aquela canção, mas ela lhe soara muito
familiar. Ouvia em sua memória uma voz grave cantando-a suavemente e um violão
bem dedilhado. Adormeceu novamente e acordou somente na hora de descer. Despediu-se da senhora que disse apenas:
- Não há de ser nada...
*texto escrito em 2007

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