28.6.07

No Último Dia



Não posso dizer que não me lambuzaria em você. No momento final não poderia negar-me um último desejo. Mas, depois, queria sentar a seu lado, no chão, no alto de algum lugar, ficar de frente para você, tocar suas mãos, brincar com os pêlos de seus dedos, contar alguns segredos, ouvir de sua infância, lembrar da minha. Teria motivo para ser triste, deixaria para depois. Olhar bastante você, segurar na garganta muitas frases intensas que fugiriam por meus olhos. Sempre achei que numa ecatombe eu sobreviveria para a sobrevida de depois. Se acontecer, vai ser bom lhe ter ao meu lado, velha tartaruga a conter os rompantes deste cão impulsivo. Eu queria perceber os momentos em que quisesse ficar sozinho, chorando aquelas dores que só você sabe dizer. Agradeceria aos deuses por lhe ter ao meu lado quando eu chorar as minhas. Queria lhe garimpar no meio dos escombros um violão empoeirado. Talvez falte uma corda e tenha que inventar nova música. Seguiria sua jornada para encontrar o que ou quem você procurasse e ficaria feliz se você encotrasse. Nadaríamos rindo feito bobos, num mar de chocolates amassados encontrados por acaso numa tarde de fome. Taparia um olho seu e ia lhe chamar de pirata dos sete ares que acabou de encontrar um tesouro.
texto e imagem: roberta silva

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