30.5.10

nós

(Sweet Ragi e Gulab Song)



- O que está tocando?
- Nossa música.
- Nunca o vi tocar com tanta agilidade.
- Assim sem cordas não tenho medo de errar.
- Não tem dinheiro para elas?
- Tenho.
- Porque não comprou então?
- Não arrebentaram, tirei para não lhe incomodar.
-
- Não, não precisa ficar assim. Eu poderia simplesmente não tocar, mas me acostumei, sabe?
- Se acostumou?
- Sim, não sei fazer mais nada enquanto você lê.
- Há quanto tempo tirou as cordas?
- Há muito...
- Quanto?
- Semanas, meses, acho.
- Porque não disse nada?
- Tive medo da resposta.
- Senti sua falta.
- Mesmo?
- Não naquele tempo. Só agora percebo que senti naquele tempo.
- Estranho isso.
- É. Muito.
- Também coloquei meias.
- Meias? Porquê?
- Para que não sentisse meus pés gelados debaixo de sua saia.
- Eu sempre reclamei e você sempre continuava a colocá-los gelados na minha coxa mesmo assim.
- Você parou de fazer aquela cara.
- Que cara?
- A de que no fundo gostava e parou de deixar a saia um pouco puxada de propósito.
- Lembro do primeiro dia da meia.
- Você notou?
- Sim, ia comentar até, mas estava num momento crucial do livro, depois passou.
- Ah.
- Só isso?
- Como assim?
- Teve mais coisas além da meia e das cordas?
- Sim. Não deixo mais os gergelins na mesa, você só cata os seus agora. E também ...
- Também..
- Deixa para lá.
- Diz.
- Não enrolo mais meu cabelo no seu pescoço quando chego.
- ...
- Não, não chore.
- Faz algo por mim?
- Claro.
- Tire as meias, vá para o alpendre e coloque de volta as cordas. Fique por lá até que eu volte.
- Onde vai?
- À padaria.
- Se eu terminar antes?
- Mesmo assim, só saia de lá para abrir-me a porta na volta.
- Porque?
- Para dar tempo de seus pés gelarem.

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