6.7.07

Ela




De sua cama ele ouve o chuveiro no andar de cima. A água bate no piso, lhe escorre pelo rosto e empoça em seus olhos. Arde. Seu desejo embaça a janela ou é a chuva ou o banho d’Ela?
A tormenta começa quando range a porta. Toc toc toc. O salto no assoalho marca o novo compasso do seu coração. Toc toc toc. Sala, corredor, cozinha, corredor, quarto, banheiro. Toc... Toc...
"Não pára! Não pára!" Silêncio ou sua respiração o impede de ouvi-la? Ainda se despe? Anda nua pela casa? O chuveiro!
O cheiro quente que invade o quarto o sufoca. Cheiro de sabonete branco, redondo, escorregadio, espumante no seio branco, redondo, escorregadio, estonteante. Sacode os cabelos molhados. Um bombardeio de pingos atravessa o chão e aloja em seu peito. Campo minado.
As mãos percorrem o corpo à procura de refúgio. Displicentes, os passos d’Ela, acima de sua cabeça, detonam a explosão. Em petit mort ele jaz.
texto e imagem: roberta silva

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