9.7.07

Ele



É noite de lua plena. Troquei as cortinas escuras de meu quarto por um fino véu azul transparente. Há tempos o observo da janela. A primeira vez que o vi chegar, acompanhado de uma bela mulher, pensei tratar-se de casal qualquer.


Tantos já vi daqui a aproveitar o isolamento do parque à noite para saciar suas ânsias de despirem-se, doarem-se e tomar do outro sua energia mais íntima e sagrada. Era um casal estranho. Ele, feio demais para eu acreditar naquilo, pedia coisas obscenas e aterradoras à bela. Ela negava visivelmente agarrada ao pejo que forjaram em seu espírito. Negava, mas não tirava os olhos dele, que ao invés de recuar avançava e lhe pedia algo ainda mais obsceno e horrendo. A lua parecia iluminá-los mais à medida que ele ousava nas palavras e falta de decoro.


As peças que a cobriam iam sendo retiradas por ela em movimentos desconectos. Parecia que a roupa pinicava-lhe ou passara a pinicar, pois justificava-se irritando-se com as pobres vestimentas e acessórios sem motivos aparentes. Ele não olhava seus gestos diretamente. Preocupava-se em repetir os pedidos, em verificar as mutações que aconteciam em seu corpo. Fazia questão de deixá-las à luz da lua para que ela também visse. Seus pêlos cresciam e encrespavam-se. Suas formas avolumavam e endureciam. Sim, apesar da distância podia sentí-las rijas e delineadas.


O nariz e a boca precipitaram-se à frente. A boca e os dentes aumentavam em proporção inversa ao nariz. As narinas abriam e fechavam cada vez mais rápidas. A bela, já completamente despida, elevava as mãos em sua direção, mas ainda sem coragem de tocá-lo. Urinava-se. Apoiado nos pés e nas mãos passou a rodeá-la bem de perto. Roçando os pelos por sua pele branca quase a derrubando, ora para um lado, ora para outro. Permaneceu assim durante muito tempo. Calmamente. Parecia não ligar para a ansiedade dela. Ela tremia, acariciava-se, chorava baixinho, mostrava-lhe o sexo e ele não a tomava.


Continuava seu círculo ao redor dela, exalando seu cheiro cada vez mais forte. Um cheiro agudo, oleoso, adocicado, azedo, que me turvava de leve os sentidos quando chegava com a brisa em minha janela. O suficiente para eu não sentir pena dela, apenas inveja. O passeio continuou por mais tempo. Mais tempo que ela podia suportar. Não fiquei surpresa ao ouvi-la implorando que a devorasse. E ele o fez. Calmamente durante toda a noite. À medida que a lua ia caminhando no céu seu corpo voltava à forma anterior. De madrugada enterrou os ossos, limpou-se. Saiu tranqüilo, livre.


Todas noites de lua plena ele volta. Nunca soube nada sobre aquelas mulheres. Nenhuma reportagem, nenhuma busca, nenhum cartaz de desaparecimento. Numa cidade deste tamanho muitas pessoas somem sem serem notadas. Já passa das oito e ele não apareceu ainda. Estranho, alguém na porta, nunca batem na minha porta.
texto e imagem: roberta silva