1.4.11

paciente x - desaparecidos



Acho que perdi a conta do tempo. Estou escondida neste motel de beira de estrada há dias. Preciso cuidar para não ficar agorafóbica. O caderno onde anotei sobre a paciente x é a única coisa que lembro ser minha neste momento. Não reconheço estas roupas, este lugar, não tenho meus documentos, ele trouxe este caderno e encontrei canetas no meio das compras que deixou para mim. Parece que tenho de escrever. 

Quando ouvi os passos do doutor no corredor parei de fazer minhas anotações. Eu queria alcançá-lo antes que a encontrasse e buscasse algo em seu prontuário. Ele andava rapidamente e parecia não me ouvir. Foi direto para o apartamento dela. Entrei logo em seguida, é tudo que lembro. Depois disso o sangue, a polícia, algemas, gritos.

Acordei algemada a uma cadeira, quase me afogando na água que jogaram em cima de mim. Outro lapso de memória e estou no colo de um homem desconhecido entrando neste quarto. Ele me deitou, saiu, voltou com sacolas e sentou-se na minha frente. Ficou em silêncio por muito tempo me olhando. Queria perguntar tanta coisa, fiquei muda, não sei se suportaria ouvir as respostas. Não faço idéia de onde possa estar, tenho medo de descobrir.
Pele negra, olhos castanhos claros, cabelo bem curto, rosto severo. Quarenta anos talvez. Era ele, o mesmo homem que minha paciente relatou. Isto não faz sentido, mas sei que era ele. Não esperou mais, disse que não saísse ou aparecesse na janela, que voltaria em breve, que eu descansasse. Obedeci. 

A cortina está fechada há uns sete dias. Dormi a maior parte do tempo, comi um pouco do que ele deixou para mim, tomei banho e troquei de roupa umas duas vezes. São roupas novas, mas me servem bem. O cheiro de sangue não sai de mim. Talvez o encanamento esteja enferrujado ou esteja enlouquecendo. Estou apavorada. Não me lembro de nada que aconteceu, mas foi grave, todo aquele sangue, minhas roupas sujas, a polícia. De quem será o sangue? Do doutor? Da paciente? Porque me prenderam? Nada nos noticiários da TV. Nem assassinatos na clínica, enfermeira desaparecida, nada. 

Tenho de esconder estas anotações. Vão me ajudar a manter a lucidez, a não perder o foco. A garagem do quarto iluminou, quem será?

Um comentário:

Juh Salomé de Beauvoir disse...

Fantástico...daria um ótimo roteiro pra filme!!!! Beijos e boa páscoa!!!