12.3.12

mrs. clooney


Roberta Silva

Ficava incomodada ao entrar em uma livraria e dar com as capas dos lançamentos estampando fotos dos atores que o viveram no cinema. Era como se a editora roubasse de mim o direito de criar meu personagem, de interpretar a minha maneira os detalhes descritos no livro.

Foi por acaso que adquiri este com a foto de George Clooney. Havia comprado os livros didáticos da minha filha e alguns da lista eram os mesmos do ano passado. Fiquei com um crédito na loja quando fui devolvê-los. Achei que o vendedor me reprenderia com o olhar por eu não ter conferido a lista antes, mas ele não fez, se me julgou uma péssima mãe disfarçou bem. 

Passei por este livro quando entrei na loja e lamentei não ter assistido no cinema ao filme indicado ao Oscar deste ano. Geralmente prefiro os livros, mas ter de comprá-los por não ter o direito de ir ao cinema é, para mim, como aceitar uma sentença injusta e não lutar.

O crédito na livraria isentou minha autoestima do vexame e não hesitei em escolher “Os Descendentes” de Kaui Hart Hemmings.

Atualmente ler ficção é também um luxo que não posso me permitir. E, tendo me obrigado a este, para não atrapalhar o estudo, leio-o dentro do ônibus, na ida para o estágio, único trajeto que consigo assento livre. Quando muito, 10 páginas por dia.

Na capa, George aparece cansado e perdido. Seu penteado não é o da moda, sua camisa é cafona e a aliança grossa na mão esquerda me dá a impressão de ser ele mesmo o marido que narra esta história tão simples e comovente.

A última vez que isto aconteceu foi quando li 100 Anos de Solidão. Na época foi também uma leitura longa. A foto do Gabriel Garcia Márquez, na contracapa, a princípio me lembrou meu avô. No entanto, ao longo da leitura ele deixou de sê-lo e eu sentia como se estivesse sentada em uma espreguiçadeira da varanda, a seu lado, enquanto ouvia-o contando a saga dos Buendías. À nossa frente uma bela paisagem e pôr de sol. 

Naquela época meu refresco preferido era chá mate gelado com canela e limão e quando pausava a leitura era ele quem ia à cozinha e trazia um copo grande para mim.

Outro dia vi uma foto recente dele aos 85 anos. Vejo aquele olhar e não aceito que ele não saiba nada de mim, que não possa escrever minha história se quiser.

Para o Clooney é diferente, não compartilhamos nossas vidas. Vejo-o tendo de se adequar à condição de pai de minhas filhas problemáticas enquanto aparelhos sustentam minha vida no hospital. Estou em coma. Irreversível.

Sua história encaixa-se perfeitamente na minha. Crio minhas filhas enquanto trabalho, gerencio a casa, faço faculdade e estou extremamente cansada. De certa forma sou eu quem assinou um living will . Sobrevivo artificialmente agindo contra minha natureza. Trabalho em algo que não me satisfaz, mantenho uma casa que não tem minha cara, me irrito com a presença das minhas filhas, não tenho vocação para a enfermagem.

Sinto falta de Gabo e dos meus cem anos de solidão.
 

Um comentário:

líria porto disse...

e eu, como mulher legítima do gabo, te assisto e faço o que posso... besos